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� do conhecimento de todo o povo de Santo a discrimina��o que vem sendo v�tima os terreiros de Angola h� d�cadas. A propalada pobreza m�stica dos negros Bantus, � fruto da ignor�ncia, da riqueza, beleza e profundidade da filosofia e da cultura Bantu.
Quando esta discrimina��o � denunciada, h� uma tentativa de neg�-la, assim como se faz com o racismo no Brasil. As queixas sobre esse menosprezo, venho ouvindo h� d�cadas, e foi um coment�rio feito sobre isso na sala de aula de Kicongo do Tata Raimundo Pires que me inspirou a id�ia de criar uma Associa��o dos Terreiros de Angola, tendo por finalidade combater esta atitude discriminat�ria.
Ao falar com J�lio Braga sobre o assunto fui muito estimulado a prosseguir no que agora quero publicamente agradecer, e me lembro de suas palavras quando disse: At� a palavra “Angoleiro” tem um tom pejorativo. Foi ent�o que pensei em chamar pessoas de diferentes casas e vertentes de Angola e Congo.Assim foi que o primeiro convidado o Tata D’Inkice Tambalacimbe Ronaldo Raimundo Oliveira do Terreiro Jussara - Congo imediatamente aceitou e indicou Tata Esmeraldino Emet�rio do Tumba Jussara como pessoa preocupada com o problema, que logo aquiesceu ao nosso convite. Convidamos Dr. D�rio, assim como n�s, tamb�m do Bate-Folha e depois convidamos Kota Zimeuanga Valdina do Terreiro Tumba Jussara de quem j� ouvira v�rias refer�ncias como mulher de luta, que por sua vez nos indicou o Tata D’Inkice Mut�-lm� do Terreiro Unz� Mutalamb�. Tivemos a primeira reuni�o e a id�ia de uma associa��o evoluiu para cria��o de um Centro de Estudos e Pesquisas.
Isto porque numa autocr�tica verificamos que realmente os terreiros
Angola abandonavam, por desconhecimento, as denomina��es na
l�ngua nativa africana Kibundo e Kikongo e adotavam palavras yorubanas
dando com isso a impress�o err�nea de n�o termos linguagem
e at� deuses pr�prios, como declarou o ilustre Sr. Pierre Verg�r,
na sua �ltima entrevista dada ao jornal “O Globo a Gilberto Gil
publicada em Dezembro de 1996”.
Em contrapartida a esse menosprezo � reconhecido por antrop�logos,
etn�logos, soci�logos brasileiros e estrangeiros a enorme influ�ncia
da cultura dos africanos de Angola, Congo e Mo�ambique na cultura brasileira.
Por outro lado a L�ngua Portuguesa entrou na cultura Angola e do Congo
de longa data. Dami�o de Gois conta que em 1504 seguiram para Congo
“muitos mestres para abrirem escolas onde instru�ram meninos
na Doutrina Crist�”.
Ney Lopes publicou recentemente seu Dicion�rio Bantu do Brasil onde
catalogou centenas de verbetes. E apenas a t�tulo de curiosidade, talvez
muitas pessoas n�o saibam que palavras como: nen�m, cafajeste,
ab�bora, bagun�a. cafun�, ca�ula, babaca, quenga,
camisu, cazuza, caruru, chibungo, forr�, lero-lero, implicar, maluco,
quitanda. maribondo, quilombola, trambique, s�o palavras de origem
Bantu.
Linvingstone. segundo Redinha, viajando entre Angola e Mo�ambique encontrou
africanos que sabiam ler e com letra t�o delicada que parecia de mulher”.
Foi assim que muitos negros trazidos como escravos, aqui chegaram sabendo
ler, escrever o portugu�s e j� convertidos na doutrina crist�.
Segundo Oscar Ribas “O kibundo em particular influenciou fortemente
o portugu�s falado no Brasil. A l�ngua Bantu marcou na realidade
um lugar not�rio no processo de transcultura��o Afro-Americana”.
Para encerrar o aspecto da l�ngua quero chamar a aten��o
dos Senhores para uma observa��o feita por Jos� Redinha
no seu livro Etnias e culturas de Angola, e que at� certo ponto explica
o porque da n�o divulga��o da l�ngua, dos ritos,
do povo Bantu, como se deu com os yorubanos.
A linguagem folcl�rica ou gl�tica das popula��es
de Angola inclui alguns c�digos de linguagem secreta ou artificial
utilizados em tempos por associa��es secretas ou semi-secretas
e atualmente em ritos sociais, momentaneamente nos de passagem ou de puberdade
masculinas s�o usados pelos iniciados durante o per�odo de est�gio
nas escolas do mato e rigorosamente proibidas de us�-las logo que retornassem
� vida normal nas suas povoa��es.
A par destas falas especiais e particulares, mostramos outras reservadas,
tendo por objetivo manter conversa��es, entre os pr�prios,
sem serem compreendidos pelos circunstantes ao grupo”. Nossas crian�as
e adolescentes usam a l�ngua com a mesma finalidade. A� talvez
esteja uma das principais raz�es pelas quais as tradi��es
Bantu, sua linguagem, seus ritos, n�o serem difundidos e divulgados
como de outras na��es.
Mesmo entre os terreiros de Angola esta coisa de guardar, de preservar este
cuidado para que este conhecimento n�o ultrapasse os limites de suas
cercas, impossibilitou o interc�mbio. Contam alguns antigos que Mariquinha
Lemb� se trancava e n�o recebia, nem atendia a nenhum estranho
ou branco, quanto mais a antrop�logos ou cientistas.
Muito bem. Porque ent�o um povo que aqui chegou primeiro e que tanto
contribuiu para forma��o da cultura brasileira, tem as suas
tradi��es religiosas tratadas com pouco caso?
Roy Glasglow no seu livro Nzinga registra que: Em 1539 Jorge Lopes Bixorda
esteve envolvido no tr�fico e no mesmo ano Duarte Coelho requisitou
permiss�o da coroa para introduzir escravos em Pernambuco.
Em 1559 a Rainha Catarina autorizou cada senhor de engenho a importar negros.
O Padre Ant�nio Vieira t�o comemorado recentemente dava a sua
aprova��o ao tr�fico afirmando que sem negros n�o
haver� Pernambuco e sem Angola n�o haver� negro algum.
“Os insaci�veis apetites dos plantadores brasileiros tinham fome
de negros e mais negros. Angola se tornou, deste modo a energia da produ��o
brasileira.
Um outro exemplo curioso da influ�ncia da cultura Bantu em nossa cultura
� o costume das crian�as de cruzar os dedos diante da boca e
beija-los para fazer um juramento. Os negros de Angola tinham o h�bito
de desenhar no ch�o uma cruz, e cruzar os dedos diante da boca e beija-los,
para fazer juramentos diante dos europeus.
Nos ensina Jos� Redinha que de acordo com as teses asi�ticas,
os Bantus seriam um povo que h� cerca de 5000 anos teriam invadido
a Som�lia, para um mil�nio depois ser expulso por nova vaga Bantu
a que se seguiram outras. Sup�e-se que as l�nguas Bantus iniciaram
a sua invas�o no sul da �frica h� cerca de 2000 a 2500
anos.
Os Bantus cultivadores extensivos, com as suas tribos ca�adoras, se
alastraram continuamente a procura de novas terras. Pensa-se que com os Bantus
se tenha iniciado na �frica a idade do ferro, e parece se aceitar em
todo caso, que a eles deve-se � forma��o de diversos
estados africanos apreciavelmente organizados, alguns deles em Angola ou influindo
sobre ela.
Os Bantus caracterizam-se culturalmente por tecnologia variada, uma escultura
de grande originalidade, uma somat�ria de conhecimentos emp�ricos
not�veis, uma literatura oral, densa, interessante de not�vel
express�o intelectual.
Do ponto de vista de sua cultura �tnica, os Kikongos do litoral cabinda,
afirmam-se por um vivo esp�rito filos�fico e proverbialista.
Os cabindas mostravam-se excelentes ferreiros, tecel�es, oleiros, escultores
de madeiras e pedras, muito aptos na confec��o de tambores,
canoas, etc e excelentes marinheiros.”
Ent�o como veremos os Bantus se espalharam por quase toda a �frica
e eram possuidores de uma filosofia e uma vis�o do cosmo pr�pria.
Acreditavam num criador supremo e �nico (Zambi ou Zambi-Apungo ou Kalunga)
em entidades que governavam o mundo e os homens (os Inkisis) e cultuavam sobremaneira
os ancestrais. Esta preocupa��o com o abstrato talvez seja a
raz�o de Jos� Redinha registrar que “a etnia Mbundo tem
uma particular firmeza na sua convers�o a cren�as e pr�ticas
crist�s, visto serem desta etnia, o maior n�mero de sacerdotes
cat�licos de Angola.
S�o tamb�m tido como povo angolano que melhor aceita os padr�es
da cultura Ocidental.
Entre os antigos Kikongo institu�ram os portugueses a partir do s�culo
XVI um sistema de monarquia de padr�o europeu, governado por um rei
que mantinha como vassalos, condes, duques e marqueses, senhoreando �reas
de territ�rios ao modo medieval.
O rei Nejinga a Cumi em 1482 deu in�cio a uma monarquia e passou a
se chamar D. Jo�o I”.
Ent�o como fizeram no Brasil com a cultura ind�gena os colonizadores
portugueses por todos os meios e modos se empenhavam em erradicar a cultura
nativa. At� por determina��o dos Papas a quem os reis
de Portugal e Espanha se mostravam obedientes.
Dram�tico exemplo disso foi o da lend�ria Rainha Nzinga, que
no in�cio do seu reinado fingira se tornar crist� esperando
obter as vantagens que o rei do Congo obtivera na ocasi�o, como recursos
b�licos, etc. E n�o obtendo �xito desistiu da convers�o.
E ap�s 43 anos de resist�ncia aos colonizadores, de luta armada,
rendeu-se de corpo e alma.
Como prova disso vamos ler um trecho da carta do Governador D’Angola
ao Rei de Portugal acerca dos termos de paz com a Rainha Nzinga, onde fica
demonstrada nossa afirma��o.
8 de Dezembro de 1657.
Senhor aos 5 dias deste m�s, mensageiros da Rainha D’Ana de Souza
(este o nome crist�o de Nzinga) aqui chegaram com os termos da paz
que fiz com ela j� que vossa Majestade est� por demais preocupada
com aquilo que diz respeito a Deus e � nossa Santa Religi�o.
Parece que o melhor resultado est� no fato da Rainha que rejeitava
por completo os ensinamentos de nossa religi�o ter retornado �
Igreja Cat�lica reconciliada depois de demonstrar tantos sinais de
arrependimento.
Ela ouve a missa todos os dias com grande respeito e adora a imagem do Cristo
Crucificado que conserva numa capela particular ao lado da igreja que construiu.
Tamb�m aplicou severas puni��es para a pr�tica
dos ritos pag�os, igualmente ordenou que todos os rec�m-nascidos
fossem batizados. Os mission�rios capuchinhos que me solicitou, s�o
por ela muito bem tratados.
Na verdade foi ao seu encontro quando ainda se achavam a uma
dist�ncia de 50 milhas de seu Quilombo. Recebeu-os publicamente ajoelhada,
beijou seus h�bitos, imediatamente os mission�rios lhe disseram
para remover de sua cabe�a alguns objetos de supersti��o
que esses b�rbaros usam.
Ela jogou esses objetos fora e perguntou se tinha algo mais a que deveria
renunciar.
Estes b�rbaros est�o muito surpresos com a espantosa submiss�o
da Rainha Nzinga.”
Esta not�vel guerreira, no fim de sua vida chegara a equivocada conclus�o
que o Deus dos portugueses era mais forte que o seu, quando na verdade a luta
era de canh�es, contra arco, flecha e lan�as, al�m das
lutas internas entre as diversas etnias que os portugueses instigavam com
intrigas e trai��es. � bom lembrar que estes fatos se
deram no in�cio do s�culo XVII.
A cristianiza��o dos negros vindo de Angola e Congo se deu na
�frica. Eles aqui chegaram em sua grande parte j� crist�os
e falando portugu�s. Eu at� diria com as devidas ressalvas que
se Angola, Congo e Mo�ambique tivessem sido colonizado pelos ingleses,
sua cultura n�o teria sido t�o devastada.
Segundo Redinha, por este motivo uma intensa cristianiza��o
foi se sobrepondo a um extrato remoto das cren�as naturais, que desde
os dias da descoberta se popularizaram sob nome de feiti�arias, como
sin�nimo de idolatrias. A presen�a do cristianismo desenvolveu
uma importante divulga��o da l�ngua e da escrita motivando-a
para de mudan�a de cren�a, a adapta��o de novos
usos e costumes.
Por estas raz�es n�o devemos estranhar o fato de termos tantas
cantigas em portugu�s e, Jesus, Maria, Ros�rio de Maria serem
temas destas cantigas. Isto n�o � indicador que tenham sido
inventados no Brasil, recentemente nos candombl�s de caboclos como
alguns pensam. Por acaso os angolanos que chegam hoje no Brasil falando portugu�s
n�o s�o africanos? As religi�es tradicionais de origem
Bantu acreditavam num Deus criador, acima de tudo, sem fim nem princ�pio.
Este Deus n�o est� distante nem indiferente, pois temos cantigas
de louvor a ele. Tinham no culto aos ancestrais o seu pilar central.
Cultuavam a terra sem dela ser propriet�rio, pois os donos da terra
eram os ancestrais, cabendo aos vivos apenas o direito de usufruto. Acreditavam
que moravam no interior da terra.” Podemos deduzir com este conhecimento,
porque o h�bito de lan�ar ao ch�o o primeiro bocado ou
o primeiro gole.
Pl�cido Temples na sua obra La Philosophie Bantu declara que os Bantus
possuem uma ontologia pr�pria, colocam Deus no v�rtice das for�as
como Esp�rito Criador dotado de poder por si mesmo sendo por sua vez
o homem um elemento participante de sua for�a, segunda uma hierarquia
em que toma o primeiro lugar os antepassados fundadores do cl� ou tribos,
em segundo os defuntos venerados.
Por outro lado, se o culto aos ancestrais tinha para os Bantus uma import�ncia
t�o grande, n�o h� porque estranhar terem introduzido
no Brasil em seu panteon o culto aos ancestrais da terra brasileira que s�o
os �ndios. Devemos lembrar tamb�m que etnias como os cabindas
e ovibundos se dedicaram ao pastoreio de bovinos.
Jos� Redinha registra a presen�a de imagem de comerciantes sertanejos
montados em bois e cavalos nos orat�rios nativos, como padroeiro de
bons neg�cios com os antigos europeus. A� temos a presen�a
do boiadeiro como entidade na �frica. O mesmo se dando com os marujos
que eram na etnia dos cabindas “excelentes Marinheiros”.